Beneficiários Suporte do governo federal pela quebra do ciclo de pobreza entre gerações, diz estudo da FGV
Geração de Rogério Carvalho, de São Bernardo, é a primeira na família a cursar ensino superior (FOTO: Celso Luiz/DGABC)

O coordenador de acervo e estudante de Ciências e Humanidades de São Bernardo, Rogério Pontes Carvalho, 33 anos, vem de uma família com sete filhos que precisou do suporte do governo federal por meio do Bolsa Família, criado em 2004, para superar dificuldades financeiras. Primeira geração da família a chegar à universidade, ele destaca a importância do programa em sua trajetória de mobilidade social.
No Grande ABC, 124.677 famílias recebem o Bolsa Família, totalizando 314.966 beneficiários, com repasse médio de R$ 660 por mês.
“O Bolsa Família é uma mola propulsora para que as pessoas ampliem sua dignidade. Ele sozinho não faz as coisas acontecerem, mas, somado a outros auxílios, como a redução das tarifas de água e energia, além do trabalho – porque meus pais nunca deixaram de trabalhar –, faz a roda girar”, afirma. “Existe um estigma de associar um programa robusto como esse ao assistencialismo. Isso não corresponde à realidade”, enfatiza Carvalho.
O debate ganhou repercussão nas últimas semanas após críticas feitas pelo apresentador Luciano Huck durante o 5º Fórum Esfera 2026, realizado no Guarujá. “Ele disse que não via mérito no Bolsa Família porque o programa tornaria as pessoas dependentes e presas ao ciclo da pobreza. Esse debate, vindo de alguém com tanto alcance e que já cogitou disputar a Presidência da República, é muito ruim. Bastava conhecer os dados, que mostram exatamente o contrário”, afirma o economista e docente da Escola de Negócios da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Roberto Vital Anau.
O estudo Filhos do Bolsa Família: uma análise da última década do programa, desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome em parceria com a FGV (Fundação Getulio Vargas) e divulgado no fim do ano passado, apontou que o Bolsa Família contribui para a quebra do ciclo da pobreza entre gerações de uma mesma família. Desde 2014, cerca de 70% dos adolescentes que viviam em lares beneficiados deixaram de depender do programa.
Assim como Rogério Carvalho e seus irmãos, muitos jovens passaram a acessar a universidade e novas oportunidades de ascensão social, incluindo a conquista da casa própria, deixando de depender do benefício. “Essa é a finalidade do programa: garantir que a nova geração não enfrente a mesma vulnerabilidade vivida por seus pais”, ressalta o economista.
“Se alguém acredita que uma pessoa deixaria de trabalhar para receber R$ 600, está equiparando esse valor a um salário. E quem trabalharia por isso? O Bolsa Família contribuiu para reduzir a pobreza no Brasil e retirar o País do mapa da fome”, afirma Anau.
INCENTIVO
Além do enfrentamento imediato da fome por meio da transferência de renda, o programa incentiva a mobilidade social ao exigir o cumprimento de contrapartidas, como frequência escolar mínima e vacinação em dia das crianças.
“O Bolsa Família tem impacto intergeracional porque, quando uma pessoa não enfrenta privações relacionadas à alimentação, saúde e educação, suas possibilidades aumentam significativamente. Nenhuma criança consegue competir em condições de igualdade vivendo em situação de insegurança extrema”, afirma a socióloga e coordenadora dos cursos de Serviço Social e Gestão Pública da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo), Glauciane Mont Serrate.
Segundo a especialista, a interpretação de que programas de transferência de renda estimulam a acomodação desconsidera a realidade cotidiana da classe trabalhadora brasileira.
“Basta observar metrôs e ônibus lotados de pessoas que cruzam a cidade diariamente para trabalhar e sobreviver. O Brasil não é um País de pessoas que não querem trabalhar; é um País profundamente desigual. O Bolsa Família não cria pobreza, mas responde a uma pobreza histórica. Muitas famílias beneficiadas já enfrentaram jornadas extremamente desgastantes. Existe uma diferença enorme entre estar empregado e conseguir viver com dignidade.”
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