Artigo O governo federal tem uma meta: 3 milhões de unidades habitacionais contratadas até o final de 2026. O orçamento do Minha Casa Minha Vida em 2025 foi de R$ 180 bilhões. O déficit habitacional absoluto caiu para o menor patamar histórico, segundo a Fundação João Pinheiro. São números expressivos, mas que escondem um problema que o setor não discute com a devida seriedade: a demanda está posta e o dinheiro comprometido, mas a capacidade de entrega segue sendo o ponto fraco que ninguém quer nomear.
Sou engenheiro civil antes de ser fundador. Trabalhei em campo e aprendi que o gargalo da construção raramente está nos recursos financeiros. Está na execução. E execução, no Brasil, depende de um modelo operacional que não evoluiu na mesma velocidade que a ambição política.
O setor cresceu 2% no terceiro trimestre de 2025, gerando mais de 192 mil empregos. É o maior motor da economia real e, ainda assim, opera em larga escala com plantas impressas, projetos desatualizados e decisões baseadas em informações atrasadas. Não é um julgamento moral, mas uma observação de quem digitalizou mais de 6 mil obras: a informação existe, mas não flui. Ela fica presa em e-mails, grupos de WhatsApp e na cabeça do engenheiro.
Projetos de habitação popular têm pressão de prazo, custo e escala que não combinam com imprecisão. Quando uma obra do MCMV atrasa, uma família fica esperando a casa que o governo prometeu – e ela, geralmente, não tem outra opção.
Soma-se a isso o envelhecimento da força de trabalho. Segundo o SindusCon-SP, a idade média do trabalhador já ultrapassou os 40 anos, e a entrada de jovens não acompanha as saídas. Ao mesmo tempo, o McKinsey Global Institute aponta que a produtividade do setor cresceu entre 0% e 1% ao ano nas últimas duas décadas, enquanto a manufatura avançou mais de 3%. O Brasil quer dobrar o ritmo de entregas sobre uma base de produtividade estagnada e mão de obra escassa.
A conta só fecha se a tecnologia deixar de ser acessório para virar infraestrutura, inclusive no segmento popular, que historicamente ficou fora da digitalização. Não falo de drones, mas do básico: uma fonte única de informação que qualquer profissional no canteiro acesse em tempo real. Rastreabilidade, visibilidade de cronograma e antecipação de riscos. Nossa empresa opera em obras de diferentes perfis porque esse problema não é exclusivo de grandes construtoras; ele está em todo canteiro onde a informação precisa circular.
O Brasil tem recursos e demanda. A capacidade operacional para entregar essas moradias com consistência é o que ainda está em construção. Três milhões de casas é uma meta que o País precisa alcançar. A pergunta é direta: com que processo vamos construí-las?
Diego Mendes é CEO e fundador da ConstruCode.
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