Editorial A interrupção da tarifa zero universal em São Caetano, menos de três anos após sua implantação, expõe deficiência de concepção. Lançado pelo então prefeito José Auricchio Júnior (PSD) com a promessa de ampliar a mobilidade e estimular a economia, o programa foi mal planejado. A proposta partiu de estimativas de crescimento da demanda e de impacto financeiro que, diante dos resultados observados, mostraram-se inviáveis. O número de viagens superou previsões, enquanto o custo assumido pela Prefeitura avançou além do inicialmente anunciado, evidenciando que o dimensionamento do projeto não acompanhou a realidade operacional nem a capacidade de financiamento do município.
Os problemas surgiram logo nos primeiros dias da tarifa zero, que começou a vigorar em 1º de novembro de 2023. O aumento expressivo de passageiros elevou a ocupação dos veículos, reduziu o conforto dos usuários e dificultou o atendimento daqueles que dependem do transporte diariamente. Ao mesmo tempo, o dispêndio municipal alcançou patamar superior ao previsto, comprometendo a sustentabilidade orçamentária. A mudança da remuneração da concessionária e a ausência de mecanismos capazes de equilibrar receitas e despesas agravaram o cenário. Quando política pública nasce sem projeções consistentes sobre demanda e custeio, corre-se o risco de se ter de abortá-la. Como foi o caso.
A decisão da atual administração de restabelecer a cobrança para parte dos usuários tenta reequilibrar o cenário sem prejudicar a população que mora em São Caetano e custeia o sistema – como se diz popularmente, não existe almoço grátis. Resta uma dúvida. O subdimensionamento verificado na implementação decorreu apenas de falhas técnicas da equipe responsável pela gestão municipal ou houve cálculo político para transferir ao sucessor o desgaste provocado pela necessidade de rever uma medida apresentada como permanente? Enquanto a resposta não vier, a experiência permanecerá como exemplo de que políticas públicas exigem planejamento compatível com seus impactos.
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